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10 Jun
Autor: https://gauchazh.clicrbs.com.br/comportamento/noticia/2019/05/a-vaidade-como-ferramenta-de-empoderam Categoria: Saúde e Vida Saudável Vaidade na terceira idade

Shirley Freitag está de olho em um casaco para o próximo outono: um modelo acolchoado, vermelho, da Norma Kamali. "É aquele que o cara da moda, Talley, está sempre usando", disse, referindo-se a André Leon Talley, um dos nomes mais influentes do mundo da moda.

Recentemente, Freitag foi ao escritório da Inspir, um residencial de luxo para idosos no Upper East Side, na cidade de Nova York, para onde pretende se mudar no fim deste ano, assim que estiver pronto. Elegantemente vestida com uma jaqueta St. John verde, calças jeans justas e tênis pretos brilhantes, ela mostrou, além de sinceridade, bastante flexibilidade ao se sentar no baixo sofá de couro.
 

Manter a imagem dá muito trabalho, revelou Freitag. Mesmo assim, "não saio sem batom nem que seja para levar o cachorro para passear". Era de esperar que Freitag, uma agente imobiliária aposentada de 80 anos, mais ou menos, já estivesse acima de tudo isso.

Suposição errada. "Tenho uma consulta com o dermatologista logo após essa visita", contou, acrescentando com sarcasmo: "Ou você acha que vou ficar esperando até as manchas de envelhecimento cobrirem minha pele?"

Como muitos de seus contemporâneos, ela não está disposta a cultivar uma aparência desarrumada, desleixada e negligenciada na última fase da vida. Freitag representa o grupo mais sênior dentro da população de idosos: uma minoria observada de perto, que está disposta a fazer investimentos significativos para manter a integridade física.

 

 

Armados com uma confiança robusta e, geralmente, uma conta bancária de semelhante vigor, eles fazem exercícios, praticam posições de ioga, pintam mechas no cabelo, fazem compras e se vestem com propósito e orgulho inabaláveis.

E por que não? "Se você tinha estilo quando jovem, sempre terá", argumentou Eve Greenfield, moradora do Renaissance Palace, em Coral Gables, na Flórida, uma das muitas residências de luxo para idosos que estão invadindo os Estados Unidos.

Nadadora ocasional e consumidora inveterada, Greenfield celebrou seu centésimo aniversário no ano passado e anunciou com algum entusiasmo: "Quando nos olhamos no espelho, gostamos do que vemos, não pensamos em velhice."

Ela faz parte de uma população envelhecida cujo senso de vaidade continua intacto: se não é o último sinal vital, como se pode supor, representa, pelo menos, um indicativo confiável de energia e autoestima.

"'Vaidade' é uma palavra pejorativa, mas profunda. Ela atinge o cerne da identidade de uma pessoa – como ela se sente, sua percepção de como está mudando ou não com o passar do tempo", comentou Marc E. Agronin, psiquiatra geriátrico do Centro de Saúde Judaico de Miami.

Esforçar-se para praticar atividades físicas, fazer uma maquiagem perfeita ou se vestir com prazer pode trazer sensação de continuidade. "Tudo isso ajuda a pessoa a se sentir a mesma pessoa que era, sempre foi e continuará sendo", esclareceu Agronin, autor do livro "The End of Old Age: Living a Longer More Purposeful Life" (O fim da idade antiga: vivendo uma vida mais longa e com propósito, em tradução livre).

Se elas sempre usaram maquiagem e joias, até algumas pacientes com demência manterão esses rituais, explicou Andrea Abbott, executiva da Symphony, uma empresa de residências para idosos presente em várias cidades nos Estados Unidos e no Canadá.

"Quando você perde certas habilidades ou a independência, usualmente o último resquício de controle, ou algo que se assemelhe a isso, que as pessoas têm está relacionado à aparência", acrescentou Abbott.

É um conceito que Zelda Fassler, de 86 anos, não perdeu. Residente bastante alegre do Lar Hebraico em Riverdale, Nova York, recentemente Fassler levou um visitante para conhecer sua mesa de maquiagem, coberta de cremes e poções. "Mesmo quando vou à sala de jantar, levo comigo escova de cabelo, batom, espelho e carteira. É o que me traz segurança", confidenciou.

Greenfield mantém viva a mesma noção. Ela ministra aulas ocasionais no Palace, dando dicas de moda e beleza a outros residentes interessados.

Ela provavelmente não ficaria surpresa ao descobrir que uma profusão de estabelecimentos modernos, incluindo academias de ginástica, consultórios dentários, clínicas de cirurgia plástica e complexos de moradia caríssimos (que recebem tanto idosos independentes quanto aqueles que necessitam de cuidados especializados) estão atendendo e, na realidade, explorando o desejo inabalável de muitos idosos de se manterem relevantes e modernos.

Idosos mais velhos estão consultando médicos e outros profissionais da saúde que, antes, não atendiam pacientes acima dos 55 anos com a justificativa de temerem pela saúde deles. Hoje, aliviaram essa postura e aceitam pacientes de 80 anos para cima.

"Acabei de atender uma senhora de 85 anos que está no terceiro marido e no quinto lift facial", disse Alan Matarasso, presidente da Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos e professor de cirurgia da Escola de Medicina da Universidade Hofstra, em Northwell.

"Foi-se o tempo em que não esperávamos ver tantas pessoas em estágios mais tardios da vida namorando, frequentando a academia ou viajando. Mas agora elas estão. E temos observado que estão frequentando mais o consultório do cirurgião plástico", completou Matarasso.

Enquanto pessoas na faixa dos 90 anos são conhecidas por pedir o lift facial, a maioria dos pacientes idosos que atende é mais nova e, segundo ele, tende a escolher procedimentos mais conservadores, como preenchimento de botox e tratamentos a laser.

Para os mais seniores, tais medidas, como técnicas cosméticas e dentárias, podem trazer um suporte relevante para a autoestima. "Os idosos me procuram por razões além da simples eficiência ao mastigar. Para alguns deles, manter um sorriso atraente é questão de dignidade", reiterou Nolen Levine, periodontista de Chicago, Illinois.

Levine se lembrou de uma paciente, uma das mais idosas, que o procurou por causa de uma quebra levemente perceptível no dente. Ele sugeriu uma dentadura parcial. "'Isso é para pessoas velhas'", disse a paciente. "Bem, e uma ponte?", perguntou. "Nada feito", ela insistia. "Quero um implante." "Mas, Jean", o dentista enfatizou, "você tem 98 anos." Batendo o pulso no braço da cadeira, ela retrucou: "Isso não é minha culpa, doutor, é?"

Sentada em um sofá da área comum do Palace – um lugar de elegância ultrapassada, com seus espelhos banhados a ouro, lustres espalhafatosos, tapetes desenhados e móveis escolhidos com o propósito de se assemelhar ao hotel George V de Paris –, Greenfield, uma ex-decoradora, anunciou: "À medida que envelheço, fico mais interessada em manter certa aparência."

"Nós nos vestimos bem para o jantar todas as noites", continuou ela, olhando para a amiga Lea Swetloff, pintora e também ex-designer de interiores. Greenfield disse: "Colocamos muita maquiagem, mudamos as roupas. Descemos glamorosas, porque, afinal, do nosso ponto de vista, é um evento social."

Swetloff, de 85 anos, conferiu brilho ao figurino discreto, composto por um suéter marrom-alaranjado e calça, usando uma série de correntes e anéis comprados em um brechó local. "Gosto de coisas", asseverou.

Se a filha não a tivesse alertado para não exagerar no visual no dia da entrevista, ela teria optado por algo mais festivo, confessou, mais alinhado com o gosto dela. "Estava pensando em uma bata colorida, jeans retos e colete de franjas", descreveu.

Freitag se sentia impelida a ousar na mesma medida. "Quando mais nova, sempre me preocupei em estar com a roupa certa, apropriada. A imagem me inquietava mais. No entanto, agora que comecei a envelhecer, sigo meu próprio ritmo. Uso tênis. Uso meia-calça. Não quero parecer absurda, mas sim experimentar identidades diferentes", ponderou.

E concluiu: "Eu me sinto livre. Não preciso agradar a ninguém além de mim mesma."

 

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