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17 Dez
Autor: Tisa Moraes - www.jcnet.com.br Categoria: Tendencias 'Sessentões' não se consideram idosos e especialistas revisam os conceitos

A definição de idoso para pessoas com 60 anos ou mais é de 1994, quando foi instituída a Política Nacional do Idoso. Passados 24 anos, muitas transformações ocorreram e, hoje, é praticamente impossível encontrar quem tenha chegado a esta faixa etária considerando-se velho.

As mudanças ocorrem em ritmo tão acelerado que, na Itália, por exemplo, a Sociedade Italiana de Gerontologia e Geriatria decidiu adiar o conceito de velhice de 65 para 75 anos. "É uma alteração que está alinhada a uma nova realidade, em que as pessoas entram na Terceira Idade mais dispostas, com maior autonomia, participação social e até idealizando projetos, como voltar a estudar ou realizar sonhos que não conseguiram na juventude", pontua a psicóloga com atuação no envelhecimento da população Gislaine Aude Fantini.

A mudança sobre a noção do que é ser idoso está intrinsecamente relacionada a aspectos como o avanço das tecnologias na área médica, o desenvolvimento de vacinas e a melhoria do saneamento básico, que contribuíram para o aumento da longevidade da população. Se, na década de 1940, a expectativa de vida do brasileiro era de 45,5 anos, menos de um século depois, em 2017, a média saltou para 76 anos, a maior da história.

 

Assim, segundo a psicóloga, o ganho em saúde, bem como o maior acesso à informação, permitiu que as novas gerações de "sessentões" e "setentões" descobrissem novas formas de viver a Terceira Idade: aquela imagem da vovó e do vovô sentados na cadeira de balanço, literalmente, fazem parte do passado. "Hoje, uma pessoa de 60 anos vive como uma de 40 anos algumas décadas atrás. Ela não se vê como alguém idoso", observa.

 

Psicóloga Gislaine Aude Fantini: "Hoje, uma pessoa de 60 anos vive como uma de 40"

 

E pensar que, em 1982, o compositor Celmar de Moraes lançava a canção "Panela Velha", eternizada na voz do cantor sertanejo Sérgio Reis, em homenagem a uma "coroa" com "mais de trinta anos". Com mais que o dobro desta idade, Maria Ivete Nascimento, 63 anos, conta que, hoje, está longe de chegar à velhice.

Aposentada, ela ocupa o tempo livre fazendo academia e hidroginástica no Sesc, além de ir a festas e sair para tomar seu sagrado "chopinho" com o marido de vez em quando. "Não tomo remédio algum e me sinto disposta. Quero viver muito e continuar assim, ativa e interagindo com as pessoas. Eu sou bagunceira", revela.

45 MIL

Segundo o dado mais recente, do Censo de 2010, quase 45 mil moradores de Bauru, o equivalente a 13% da população, tem 60 anos ou mais. Até 2050, a projeção do IBGE é de que este número irá triplicar, ampliando ainda mais a demanda por estrutura de assistência de saúde e de serviços voltados à Terceira Idade, conforma aponta o geriatra Júlio Rodrigues Horta Filho. "Antigamente, era uma heresia o médico falar para uma pessoa de 80 anos fazer exercícios físicos. Hoje, é algo cada vez mais comum e necessário para uma longevidade saudável", aponta.

 

Júlio Horta: " Antigamente, era heresia médico falar para pessoa de 80 anos fazer exercício"

 

Por conta do crescimento acelerado desta fatia da população, a pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Ana Amélia Camarano, especialista em envelhecimento populacional, defendeu, em entrevista recente ao jornal Folha de S.Paulo, que, a exemplo da Itália, o Brasil precisa estabelecer um novo corte - em torno de 65 anos - para demarcar o início da velhice e, ainda, igualar as idades exigidas nas diversas políticas públicas para os idosos. "O Brasil tem uma confusão ainda. Cada política social define uma idade diferente. O Benefício de Prestação Continuada é 65 anos ou mais. O transporte gratuito é 65 na Constituição e, em algumas cidades (como Bauru), é a partir de 60. A meia-entrada é 60 anos ou mais. É preciso, primeiro, homogeneizar isso", afirmou.

Aos 75, com espírito de 15

"Eu sou um jovem de 15 anos. Mais 60", brinca o aposentado Wilson Maldonado Leão, 75 anos. Aposentado há cerca de dez anos, ele trocou a vida agitada como administrador de empresas por uma rotina também bastante movimentada, mas longe do trabalho.

Wilson Maldonado Leão: "Eu sou um jovem de 15 anos. Mais 60"

 

Por conta de alguns problemas nas articulações do joelho, faz hidroginástica quatro dias por semana e não abre mão de se encontrar com amigos para jogar tranca e buraco.

"Não sou muito de ficar em casa. Ficar parado não é comigo. Eu comecei a trabalhar com 12 anos e, depois de aposentado, consegui me adaptar. Vivo muito bem. Espero continuar assim por mais uns dez anos", projeta.

 

Época de sonhar e realizar

O sorriso largo não deixa dúvidas: o aposentado Emílio Camaforte, 81 anos, é um apaixonado pela vida. Além de praticar atividades esportivas, como vôlei adaptado, ele viaja ao menos uma vez por ano com a esposa, Soledade Peral Camaforte, 80 anos.

O aposentado Emílio Camaforte, aos 81 anos de idade, é um apaixonado pela vida

 

"Da última vez, nós fomos para Ubatuba. Em fevereiro do ano que vem, vamos para Minas Gerais. Quando não vamos em excursão, vamos sozinhos. Mas em excursão é mais divertido. A gente vai fazendo farra", comenta ele, com a disposição da juventude dos seus seis netos e quatro bisnetos. "Eu me sinto jovem, brinco bastante. Faço muita anarquia, converso com todo mundo. Fazer festa é a coisa mais gostosa que tem na vida", recomenda.

Assim como Emílio, Maria Conceição Melo de Godoy, 68 anos, também é praticante de vôlei adaptado. Foi quando chegou à Terceira Idade que ela decidiu começar a realizar projetos que havia deixado de lado durante a juventude e maturidade, como praticar esportes e dança.

 

Maria da Conceição de Godoy joga vôlei adaptado

 

"Tudo que eu desejava fazer eu fiz ou estou fazendo. Às vezes, as pernas não obedecem na mesma velocidade o que a cabeça manda fazer, mas isso não me impede de me manter ativa. Sou totalmente independente, algo que é muito importante. Não me sinto velha. Eu sou é bem vivida", completa.

Expectativa de vida

No início deste mês, a Sociedade Italiana de Gerontologia e Geriatria divulgou que decidiu recalcular a idade a partir da qual uma pessoa é considerada idosa no país: agora, um italiano só é oficialmente idoso depois dos 75 anos de idade e não mais aos 65 anos. Na Itália, uma das nações mais longevas do mundo, a expectativa de vida é de 83 anos para homens e 86 para mulheres. O cálculo dos geriatras: uma pessoa pode ser considerada velha dez anos antes da sua expectativa de vida. Tendo este critério como ponto de partida, o parâmetro de 60 anos para marcar o início da Terceira Idade no Brasil também estaria ultrapassado, visto que a expectativa de vida no País é de 76 anos: 72,5 anos para homens e 79,6 para mulheres.

 

 

 

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