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20 Set
Autor: Lílian Cunha , 6 Minutos - São Paulo Categoria: Mercado +60 O lucrativo mundo dos 60+: por que vale a pena atender esse público

O que descobrimos

  • Há 962 milhões de pessoas com mais de 60 anos no mundo. Até 2050, essa população sênior passará dos 2,1 bilhões
  • Na última década, os 60+ tinham 11% da renda no Brasil. No ano que vem, terão 16%, em decorrência do envelhecimento da população e do aumento do poder de compra dos brasileiros.
  • Muitas das empresas brasileiras que investem nos 60+ são startups que tentam resolver problemas pessoais desse público, como monitorar a queda de um idoso ou o horário de tomar remédio.

Há bem pouco tempo mesmo, o mercado de produtos para pessoas com mais de 60 anos se resumia a meias de alta compressão, bengalas e fraldas geriátricas. Mas recentemente isso começou a mudar. A indústria passou a perceber que o mercado dos “60+” (as pessoas commais de 60 anos) vale a pena. No mundo, há 962 milhões de pessoas com mais de 60 anos e, até o meio deste século, a população sênior passará dos 2,1 bilhões, de acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas). Não dá mais para ignorar esses números.

“Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística apontam que os maduros já representam hoje quase 20% do consumo, movimentando cerca de R$ 1,6 trilhão”, diz Layla Vallias, cofundadora da Hype60+, consultoria especializada nessa faixa de consumidores. 

Grandes multinacionais já começaram a abrir o olho para esse novo perfil de consumidor. A P&G (Procter & Gamble), por exemplo, é uma das patrocinadoras da Aging 2.0, uma rede organizada em 25 países, incluindo o Brasil, para identificar tecnologias e novos produtos focados no público 60+. A companhia, por meio de sua marca Gillette, lançou há dois anos o primeiro item focado em pessoas mais velhas: o Treo, um aparelho de barbear criado especialmente para facilitar o ato de fazer a barba de outra pessoa.

No Brasil, o produto ainda não foi lançado. Mas não faltam por aqui iniciativas com foco nesse público, cujo poder de compra deve superar os R$ 31,8 trilhões no mundo já no ano que vem, de acordo com a pesquisa Consumer Generations, feita pela Tetra Pak em 27 países. O relatório aponta que no Brasil o público sênior tinha 11% da renda do país, na última década. Até 2020, a expectativa é que eles passem a ter 16% em decorrência do envelhecimento da população e do aumento do poder de compra dos brasileiros.

Uber do vovô

 Muitas das empresas brasileiras que investem nos 60+ são startups que começaram a partir da necessidade de resolver problemas pessoais. Esse é o caso da Eu vô, uma espécie de Uber para a terceira idade. “Minha mãe tem esclerose múltipla e é difícil para ela se locomover. Mas quando eu e o meu irmão começamos a levar ela para passear de carro ou simplesmente fazer compras, notamos que a qualidade de vida dela melhorou muito”, lembra Victoria Abdelnur Barboza, de 27 anos, que junto com o irmão, Gabriel, fundou a startup em 2017.

No começo, ela e Gabriel dirigiam seus próprios veículos para atender aos idosos, que agendavam as corridas por um aplicativo, na cidade de São Carlos, no interior de São Paulo. Hoje, já são 45 motoristas em São Paulo e 18 em São Carlos, que atendem 1.060 idosos. Os motoristas são treinados para dirigir sem dar solavancos, para ajudar os idosos a entrar e sair dos veículos e até acompanhá-los no supermercado ou a uma consulta médica. Victoria não diz quanto a empresa fatura, mas afirma que a companhia já recebeu um investimento de R$ 500 mil para poder se expandir para São Paulo e que as contas estão em equilíbrio.

Rede de cuidadores

Claro que todo mundo quer envelhecer bem, saudavelmente. Mas nem sempre isso é possível. O que facilita, nesse caso, é ter uma rede de apoio. E foi isso que o designer Celso Kenji Ichi resolveu criar depois que o pai teve mal de Parkinson. No final do ano passado, ele lançou o site Upcare, um portal onde famílias podem contratar cuidadores, nutricionistas e vários outros profissionais para ajudar na tarefa de assistir parentes que precisam de ajuda.

“Todos os profissionais passam por um processo de validação das capacidades, não contratamos qualquer um”, explica Ichi, que tem 31 anos. Por meio do site, além de entrar em contato com profissionais, o idoso pode passar por uma avaliação  para saber que tipos de serviços são mais indicados para ele (existe uma graduação que determina o grau de independência da pessoa). Em menos de um ano de funcionamento, cerca de 70 famílias já foram atendidas pela UpCare e quase 300 profissionais já foram indicados.

 Escalabilidade

 Mas porque só agora as empresas passaram a prestar atenção nos mais velhos se eles sempre fizeram parte da sociedade? “A indústria só enxerga os consumidores quando eles formam uma grande massa, quando vender para esse público gera escalabilidade”, diz Caiam Esper. Ele, desenvolvedor de produtos digitais, e Ariel Hemsi, especialista em marketing, se uniram para criar uma startup também voltada para o público 60+, a 60+Care. O produto é um aplicativo para “smartwatches” (relógios com funções de smartfones) que mede sinais vitais e avisa se houver alguma queda com a pessoa que estiver usando o aparelho.

“Se a pessoa com o relógio cair, uma lista de contatos previamente especificada é avisada”, explica Esper. A pessoa não precisa configurar, nem fazer nada: basta usar o relógio. O aplicativo também faz um relatório dos sinais vitais, de quanto a pessoa caminhou durante o dia (em passos) e outros dados, que podem ser monitorados por familiares. O produto ainda não foi lançado, mas deve chegar ao mercado até o fim do ano.

Outro aplicativo semelhante foi criado pela ex-executiva carioca Ana Paula Neves. Mas diferentemente do 60+Care, o Gero360 foi criado para ser usado em computadores, tablets e smartfones, pela família do idoso ou por instituições que cuidam deles. Além de monitorar sinais vitais e a saturação de oxigênio (o que ajuda, por exemplo, a prever crises de falta de ar), o Gero 360 controla horários e quantidade de remédios que a pessoa precisa tomar, indica quando o estoque precisa ser renovado e em quais farmácias o medicamento custa menos. “Normalmente, o cuidador do idoso compra o remédio na drogaria mais próxima. Isso gera um gasto extra. Com o aplicativo, por exemplo, o gasto com medicamentos pode cair até 40%”, explica Ana.

Lançado no final de 2017, o aplicativo já assiste a cerca de 1.800 idosos. Sete instituições de longa permanência que cuidam de idosos, no Rio e em São Paulo, já estão usando o aplicativo com seus internos.

 
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